The Pothead Blues

poesia beatnik e pensamentos nihilistas

08 março 2009

pequeno almoço

cansei de ser pobre. hoje de manhã, domingão de fornalha n´aclimação, resolvi me permitir uma inovação no café-da-manhã. um risco calculado. cansei do balcão da padaria madame, de ficar ali de pé, aguentando os resmungos do gentil. então, em vez de tomar o rumo da pires da mota, desci a rua loureiro da cruz até a padaria mais chique destas paragens. a padaria bienal dos pães. pra tu teres uma ideia, a última vez que estive na bienal (perceba as implicações deste nome) foi acompanhado de nosso brother andré de garcia e seus colegas popstars gringos da banda kill karma. oh, a bienal dos pães é mesmo conhecida por sua seleta clientela internacional.
atravessei o salão climatizado da bienal dos pães e fui me refugiar, como sempre faço, na última mesa, encostada à janela. ali no fundão, eu tenho visão de periscópio sobre tudo que se passa no salão, não sou surpreendido por garçons de balouçante bandeja nas mãos ou por infantes criados à solta. me sentei ali no fundão e aproveitei para apreciar o clima na bienal. ainda eram oito da manhã. os jovens casais, com bebês empurrados em carrinhos, ainda não tinham chegado para o desjejum continental - mais bacon, salsicha e omeletes.
a padaria quase vazia. a não ser, aqui na mesa da minha frente, por quatro amigas orientais que falavam alto num idioma, idioma que me soava como se fosse transcrito de trás pra frente pulando as vogais anasaladas. japonês? coreano? chinês? te digo que nunca sei ao certo. mas achei muito doido quando as japinhas se puseram de pé, de uma vez só, como se atendessem a uma ordem de comando, dando a refeição por encerrada e se encaminhando ordeiramente até o caixa.
foi quando notei que as quatro vestiam exatamente a mesma roupa. um vestidinho tricolor listrado em branco-verde-laranja, que descia até os joelhos, uma blusinha cinza por debaixo do vestido, blusinha justa, revelando discretamente a tez pálida em decotes sutis, e sapatos escuros fechados, te diria até formais demais pruma manhã de domingo. os quatro cabelos presos em quatro invariáveis rabos de cavalo. seria esse o novo look da coleção yamamoto para o verão de tokio? seriam elas quatro irmãs em uniforme colegial? a se julgar pela idade, vinte e tantos anos, vinte e poucos uma delas, o uniforme colegial seria mesmo puro fetiche oriental. bateu uma tesão. estariam as japinhas tomando rumo de um novo balneário d´aclimação? um balneário que abre nas manhãs de domingo? um balneário de temática oriental?
o certo é que nunca veria essas quatro japinhas na padaria madame.
é nestas horas, te digo aqui, que me falta a presença de espírito de deixar tudo pra trás, deixar a garçonete ali de pé, parada, esperando meu pedido, para ir atrás dessas gurias. simplesmente pagar pra ver. como charlie harper. como george constanza. apostar na sorte. mas sou b*ndão. peço uma xícara de café e um misto quente. ainda ali sentado, no fundo do salão da bienal dos pães, pude ver as quatro japinhas risonhas entrarem uniformizadas em uma veraneio escura de vidros blindados, uma veraneio de quatro portas, uma japinha a entrar por cada uma das portas, uma veraneio que ligeiro tomou rumo deconhecido. quiçá o rumo da liberdade.

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