The Pothead Blues

poesia beatnik e pensamentos nihilistas

26 setembro 2006

a educação constrói um novo país

as crianças estão perfiladas. uniformes engomadinhos, cabelos penteados e sapatos lustrados. as crianças são vigiadas e mantidas em fila pelos mestres. as colunas ocupando boa parte da quadra poliesportiva do colégio integração, cravada milimetricamente entre três muros altos, diante de um alambrado e sob o manto de sombrite industrial cinzento que protege os infantes dos estilhaços de construção civil que despencam da obra ali ao lado. a quadra não é grande, mas os alunos também não são muitos. e estão bem comportados, ordeiros, quietinhos, tipo os menores da febem rendidos numa tarde de sábado, detentos que bem poderiam estar ali também, mas não deram essa sorte de estudar na aprazível aclimação. um professor, possivelmente o diretor da escola, ou melhor, a secretária do diretor da escola, ou quem sabe o ajudante da secretária do diretor da escola, aperta o play do toca-fitas e a barulheira dos operários em seus andaimes é abafada pelos acordes estridentes do hino nacional. as crianças, com empolgação brainwashed de fazer corar os publicitários e de deixar ejacular o galvão bueno, entram todas ensaiadinhas no compasso exato do ouvirundum. as vozinhas infantis se fazem ouvir até o nono andar do the double tree park, de onde me assusto com tamanho alarde patriótico desarrazoado. meto o cabeção na varanda e fico aliviado ao perceber que, ao menos, as crianças não estão com o braço direito estendido fazendo a saudação nazista. anauê.
tamanha degeneração me faz lembrar as manhãs púberes do colégio marista de brazília. com banda marcial, com hino nacional e hasteamendo do pavilhão pátrio. a troco de quê?, eu me perguntava então, mascando chicletes. a troco de quê?, eu me pergunto agorinha mesmo, acendendo um camel light. no marista, me recordo, era bem pior. além de convidarem os pais para testemunharem os delírios patrióticos dos padres, eles ainda começavam todas as aulas, a cada manhã, invariavelmente, com uma "ave maria" puxada e trasmitida ao vivo em rede interna de rádio e tevê. eu repetia as palavras sagradas baixinho - seja vós entre as mulheres? - reparando os peitinhos adolescentes da cintia, torcendo pra ladainha não acabar, torcendo pra uma "ave maria" puxar a outra e puxar mais uma e se transformar num terço, numa novena, numa romaria à pôrra do vaticano. porque quando a "ave maria" acabava - agora e na hora de nossa muerte, amém - logo a aula começava. "abram seus livros na página 273", cuspia o obeso e mal barbeado professor de biologia, engrenando a leitura de um parágrafo qualquer. "aqui no meu livro eu sublinhei este parágrafo sobre o complexo de golgi e marquei com dois asteriscos", ele indicava para o aluno espertinho que entedesse sua genial pista. gente fina. eu cansava de admirar a distância os peitinhos da cintia e olhava perdido pela janela, de onde via apenas mato, mato alto, e o teto da embaixada do iraque. eu suspirava em direção ao iraque.

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