The Pothead Blues

poesia beatnik e pensamentos nihilistas

31 outubro 2008

celebridades

impressionante a vida n´aclimação. parece o leblon.
aqui em são paulo encontramos popstars no meio da rua.
dia desses, dei de cara com o brito.
hoje de manhã, estava saindo do supermercado dany, carregado de compras, quando topei com ninguém menos do que john pothead.
um cara tranquilo, super simples e sem estrelismo que, numa boa, ainda bateu papo comigo por longos minutos ali às portas do mercado.

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30 outubro 2008

the joy of a lazy afternoon

aconteceu-me um evento bizarro dia desses. out of the blue.
tipo do troço que era, que é, perfeitamente previsível - e diria mesmo legítimo - de se suceder, mas que, não obstante, me pegou desprevenido na hora e me deixou meio zonzo por um tempo.
foi quando eu estava dando um rolê pela aclimation avenue, distante um par de quarteirões aqui de nosso the double tree park. era uma tarde de terça-feira e, se não me engano, ainda estava a ruminar um dos cookies de chocolate assados pelo john pothead. a digestão do cookie, já foi dito, é um processo lento que te ocupa tanto a flora intestinal quanto as idéias da cachola. então tu fica ali, um pouco perturbadão, mas de boa na tarde da terça-feira.
eu estava sentado na parada de baú, perto da churrascaria laço de ouro, assistindo ao movimento das gostosas. muitas gostosas moram n´aclimação. é bacana ficar di boresti numa tarde dessas, que as gostosas passam aqui e aí sem nem perceberem os compridos olhares em homenagem. gosto demais de ver uma gostosa desatenta à própria gostosice. esses momentos de desatenção, de desarme, fazem até uma guria bonitinha ficar bem gostosa. tu me entendes.
a japinha esperava o baú de pé na calçada. poderia ficar aqui, sentada ao meu lado no ponto, mas acho que ela me tomou como molestador. ou sentiu o bafo do cookie. ou sua família a proíbe de sentar-se perto de ocidentais em lugares públicos. a saber.
a japinha ficou de pé, trocando de perna, impaciente e sensual sobre seus tamancos fashion, a calça jeans, bem apertada, não deixando espaço pra imaginação. o vento d´aclimação soprando sua camiseta ao encontro do busto miúdo em sua alvura revelada ali debaixo do pouco pano. ela bem que ficava muito bem, vista assim de perfil, no ventinho, não posso te negar. talvez por isso não quisesse se sentar.
a japinha tomou o elétrico que segue no rumo da sé.
e eu levantei e fui embora então.
levantei na buena, meio devagar, meio troncho nas idéias, ainda pensava na japinha quando dobrei a esquina em frente à churrascaria e, na mesma calçada, dei de cara com o brito.
e com a senhora brito. os dois juntos. o casal brito juntinho, dando um agradável rolê pel´aclimação. os dois britos estavam em silêncio, possivelmente tinham acabado de brigar, instantes antes de darem de cara comigo na esquina fatal. te digo que tentei disfarçar minha perplexidade com um aceno, leve menear, e um gentil porém descompromissado "olá, como vão?" dito de passagem. o casal brito, cortês, me retribuiu com um delicado aceno de cabeça, um quase meio sorriso, e seguiu descendo a pires da mota.

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the poetry as another thing

- bom dia, guria, tu curtes poesia?
- oh. poesia. claro.
- puxa. que bom, tu tens sorte.
- quem é você?
- sou o poeta.
- o poeta?...
- o poeta do amor.
- trouxe poesias bonitas? estou precisando ler coisas boas
- "coisas"?
- sim. bem bonitas...
- desculpe. mas não é assim que funciona.

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29 outubro 2008

astronautas na lua

"Dormir é uma das melhores coisas que você tem no espaço. O problema é que você pode dormir em um lugar e acordar em outro."
(marcos pontes)

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28 outubro 2008

the gravity´s rainbow

hoje é dia de maria rosa. dia de faxina aqui no meu esconderijo beat. os minuciosos leitores deste tpb já sabem como é minúscula minha unidade residencial deste aprazível the double tree park. então, quando a maria rosa bate aqui, o que eu melhor posso fazer é vazar. deixar a área livre para a maria rosa agir com seus esfregões e suas orações. me despeço dela e vou alii dar um rolê pel´aclimação. hit the road, jack. caçar o que fazer. estou a descer de elevador quando me estala uma daquelas idéias que fazem fumacinha. ora, então porque não mandar como desjejum aquele cookie de chocolate que me sobrou da última semana? derradeiro remanescente da fornada que o john pothead fez dia desses, e que ele não achou lá grandes cousas - pensa em acrescentar umas passas na próxima vez, queimou um pouco no forno, tinha um ovo a mais do que dizia a receita da ana maria braga - mas te digo que o que talvez falte de paladar ao biscoitinho sobra de... bem, tu sabes.
dez da manhã, olho no relógio, boa hora pra getting high.
desço a rua pires da mota no embalo. descer é de boa. quando reparo, estou perto da p*taquepariu, quase glicério, onde tem um colégio público e a molecada matando aula pelos botecos ao redor. gosto da doceria redentor. quero dizer, não sou doido de comer qualquer cousa que saia de lá, mas gosto do prédio detonado, looks like a squat, de janelas quebradas e paredes pichadas até o sexto andar. gosto dos moradores, com aquele ar ausente, jeitão de quem queimou uma merla faz pouco. a molecada do colégio também deve curtir, aglomerados aos bandos à frente da doceria, matando a lariquinha da manhã. sigo até ali adiante e me esparro num dos bancos do largo nossa senhora da conceição (acho que é esse o nome, algo assim, sei lá, não sou bom cristão) onde dois pivetes (um branco e loiro de olhos verdes e um do tipo laranjinha & acerola) jogam tênis sem raquete e sem rede. muito antonioni da parte deles. batendo na bolinha com as mãos. te digo que acho chique de ver um esporte assim. conceitual. bacana por cinco minutos. como qualquer troço conceitual. então espicho o corpanzil, estalo os joelhos e vou dar uma banda.
quando dou por mim, um mísero instante despues, estou andando pelo parque da aclimação. muito doido que colocaram uma placa à beira do aclimation lake. dizendo ser a água imprópria para banho e/ou consumo humanos. a palavra "humanos" é necessária, pois os patos de três asas parecem bem à vontade entre os dejetos industriais. patos peidam.
sento debaixo duma árvore. a ser hyldon. tento ler meu livro do cortázar. não entendo palavra. leio o parágrafo novamente. entendo lhufas. salto uma resma de páginas e tento outra passagem mais à frente. incrível. entendo menos. falta a tesão, sabes?
respiro baixinho porque sou massageado por três ninfetas semi nuas. estou esparramado sobre um baita colchão king size, daqueles pra fazer p*taria, the surubs style. fecharam o balneário vison em homenagem ao grande poeta beat da loureiro da cruz. nã, eu não sou o jack kerouac! aquele biriteiro. eu sou o thomas pynchon, p*rra! beat happening no puteiro. john pothead lê allen ginsberg de dentro da jacuzzi, abraçado a duas orientais. quando me lembro que tem uma guria agarrada em cada perna minha, a morder de leve, a passar em mim o macio óleo de amêndoa que lubrifica a libido. a terceira guria tira as botas de couro e sobe em minhas costas, galgando meu corpo a partir das omoplatas e seguindo ligeiro até o cóccix. caminha sobre mim, pisando forte sobre as minhas costas com seus pezinhos delicados trinta e seis. peço que deixe disso, peço que calçe as botas. oras. como eu fosse o tapete de urso que ela ganhou na última caçada. o grande urso polar. e dói. this just might hurt a little, love hurts sometimes when you do it right, don´t be afraid of a little bit of pain, pleasure is on the other side. dói macio.

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do nothing till i hear from you

recebi ontem um e-mail meio david lynch.
lia-se no subject algo supostamente ameaçador
"aviso: seu e-mail será cancelado em 72 horas"
o rementente assinava como "equipe hotmail" e
te digo que até foi bom saber que alguém lá no hotmail pensa em mim
mas, na dúvida, mandei pra lixeira

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I love to smoke marijuana, it keeps me in deep meditation

- E aí, guria, curtes Maryjane?
- Ahn?
- Barley? Sinsemilla?
- Fucking what?
- The weed? Curtes?
- Hmmm…
- Curtes roll the one? To be a litlle spaced out?
- Do que tá falando?
- Tou falando de Dub du Bão
- Que porra é essa?
- Dub. Augustus Pablo, Lee Scratch Perry, Black Uhuru, Israel Vibration. Homenzinhos da Diameica, mucho locos de num-sei-o-que pirando na reggae music
- Ah é? Parece bom. Quando é isso?
- Hoje, dez da noite, na Rádio Cultura FM de Brasília, 100,9. Programa Anjos da Noite – aquele, dos camaradas do TPB
- Cool

PS: também no site

http://www.movimentocalango.com.br/radiocultura.asp

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27 outubro 2008

sapato apertado

preguiça de cortar as unhas dos dedos dos pés

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uma adorável primavera

te digo que o vento faz a curva logo ali na esquina da pires da mota com a josé getúlio.
e venta tanto mas tanto tanto no décimo-sexto andar do the double tree park, aqui onde resido, que as portas e janelas passam a tarde a bater em agradável sinfonia percussiva.
tu vai lá e abre a pôrra da janela, e depois que tu dá as costas, ela bate quase estourando vidros e esquadrias.
então tu tem que fechar tudo.
mas às vezes, quando venta assim pra cacete, também acontece de fazer um calor dos diabos. então teu cafofo beat, de reduzidas dimensões, assume características de uma sauna a vapor.
e tu tem que ligar o ventilador pra soprar um arzinho de leve.
(o ka$$ab não fez alarde, mas conta de luz subiu alguns bons cifrões)

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jornalismo edificante

uma manchete quentinha do noticiário de celebridades:
"cássia kiss é só auto-estima depois da bulimia"

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desagradável propensão

"às vezes lópez precisa voltar a trabalhar porque descobriu que o dinheiro tem uma desagradável propensão a ir encolhendo, e de repente uma grande e bela nota de cem francos sai do bolso transformada em uma de cinqüenta e quando menos se espera esta se reduz a uma de dez, e depois acontece uma coisa horrível e é que o bolso fica muito mais pesado e até se ouve um tilintar simpático, mas essas agradáveis manifestações se originam apenas de umas poucas moedas de um franco e aí é que eu quero ver."
(julio cortázar)

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26 outubro 2008

por pouco

cá entre nós...
o brother gabeira escapou de boa

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25 outubro 2008

o poeta do meio-dia

rambling on my mind. te digo que meu cérebro derrete em sinapses lentas e espasmos macios. nã. desta vez não se trata da lenta digestão daqueles cookies de chocolate. mandei um cookie pra dentro, como café da manhã, bem verdade, mas agora estou assim meio devagar, meio gasto, meio seqüelas por pura insolação jazzy.
sol a pino em são paulo.
sentado na grama, com os fundilhos dormentes sob o belo sol outonal paulistano de rachar.
suando feito antílope mancueba em savana africana.
sábado de manhã no parque. very cozy. tipo de atividade árcade que não me apetece nem um pouco. sou mais um hippie urbano de quarto-sala, incenso de sândalo e um bom sofá.
mas com sonny rollins na trilha-sonora, não tem jeito, mesmo o parque do ibirapuera vira uma espécie de caixinha de areia particular. the sonny.
feliz e vermelho.
agora volto ao the double tree park, tantas horas depois.
atravesso a nuvem de fritura gordurosa que o almoço do velho brito espalhou pelo átrio do décimo-sexto andar e, enfim, atinjo a privacidade de meu apartamento beat. acendo logo um par de incensos. tomo uma ducha gelada - temperatura do degelo do ártico - para me aprumar o lombo. mais vermelho que camarão com escarlatina.
empilho minha carcaça sobre meu sofá hipster e canto baixinho. canto sonny pra ti. tan-tan-tan, tan-nan-nan, tan-tan-tan, nan-nan-nan-nã.
mas sou ruim de ritmo e erro a cadência. nan-nan-nan-nã.

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24 outubro 2008

na pressão

breaking news do noticiário internacional:
"Um gás liberado em flatulências pode desempenhar o papel de regular a pressão sangüínea, segundo um estudo da John Hopkins University publicado pela revista especializada Science. Pequenas quantidade de sulfeto de hidrogênio (um gás tóxico gerado por bactérias que vivem no intestino humano) são responsáveis pelo mau cheiro de flatulências. Mas o estudo mostra que esse gás também é produzido por uma enzima encontrada em células que revestem as veias sanguíneas, chamada CSE, e ele teria o papel de relaxar essas veias e baixar a pressão. As conclusões, tiradas a partir de um estudo com camundongos, podem levar a novos tratamentos para a pressão alta."

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23 outubro 2008

a little spaced out

a receita de cookies de chocolate, da ana maria braga, me deixou mais xarope que o louro josé. o que teria john pothead, notório gourmet lisérgico, misturado à massa daqueles inofensivos cookies? quando desci do táxi, minhas pernas bambearam e me senti meio armstrong a pisar em solo lunar. sentindo a súbita alteração gravitacional e tentando calcular o peso e a força a dar para as pernas a cada passada. tu acabas andando meio torto assim, até se acostumar com o repuxo. e todas as pessoas todas ali ao redor todas olhando pra mim, seria esquizofrenia minha, estariam ouvindo meus pensamentos? reparariam na minha desfamiliaridade com aquele meio ambiente alienígena? calculo a próxima passada e olho para john pothead, meio freaking out, até tinha me esquecido que ele veio junto no táxi. e lá está mister potman caminhando inabalável em linha reta, não porque queria caminhar assim, apenas por que it feels like walking. john pothead passa pelas barreiras de segurança, pelos engravatados, pelos modernos jazzy. john pothead a entrar na ampla nave sem nem olhar para o redor. a luz branca do luminoso átrio halo aeroespacial me ofusca a vista. quase atropelo um sósia de devendra banhardt. tenho sérios impedimentos em calcular meu deslocamento espacial, m/s. cat power passa por mim, acompanhada de um trouxa. me perco na arquitetura moderna de tuas curvas. acordo no terceiro sinal, entalado na poltrona, meus joelhos prensados contra a mureta acarpetada. pessoas inteligentes fazendo comentários sarcásticos a três dedos de minha nuca. ponto de macumba. sinto que ouço mais o que se passa pelas minhas costas do que gostaria de ouvir aqui na minha frente. teu canto de macumba. sinto minhas rótulas abandonando as pontas de meus fêmures. em momentos assim começo a suar feito camelo. um bocejo me chama lágrimas à flor dos olhos. não as deixo escorrer pela face, respiro fundo, sinusite style, tampo o ar nos pulmões e lembro do jovem fred chalub a me dizer em épocas passadas... é como estourar uma bomba, sem a estourar de fato... novas ondas de vertiginosos pensamentos se sucedem em meu cerebelo, pensamentos se intercalam e se sobrepõem e se excitam em shuffle permanente pelo meu tronco cerebral, irradiando conflitantes comandos por minha espinha cervical, como uma meditação ao contrário: all my thoughts now at once. a poltrona me espreme mais duas polegadas, apertaram um torno sobre minh´alma. no hay banda. o sangue a abandonar minhas pernas. sinto certa liberdade inaudita ali crunched por estar assim em posição fetal. tudo tão normal. te pergunto se estaria entalado em outra dimensão? the very macumba amazes me. quando tento espichar os braços, encompridar as pernas, me soltar, levantar os braços, quiçá me soltar daquele lugar, encontro john pothead sentado ao meu lado. absorto. como veio parar aqui?

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22 outubro 2008

like sonny

me lembro quando enchiam o saco dos rolling stones porque eles eram "velhos demais" pra fazer rock and roll. isso foi no final dos anos oitenta, quem se lembra? o chato do morissey até gravou uma música falando preles get out of the stage. perceba que faz tanto tempo que já desistiram de aposentar os stones. o morissey, hoje uma bicha velha de quarenta e tantos anos, continua nos palcos, colhendo rosas dos fãs e caprichando no gel pra deixar de pé o que resta do topete eighties.
te falo sobre isso agora, quase uma da manhã de quarta-feira.
chegando do show do sonny rollins. velhinho sonny, setenta e oito anos, mais de meio século de atividades jazzy. tocando de pé ali para nós, mamelucos endinheirados do terceiro mundo, durante duas horas e dez minutos. (a dani contou no relógio, eu deixei rolar.) te digo que levei a primeira música inteirinha, tipo uns vinte minutos, talvez fosse "bluesnote", vá saber, desacreditando naquele sujeito.
the old man ali todo troncho, andando meio de lado, meio torto, meio guenzo, como era guenzo meu saudoso golzinho fubanga de tanto catar meio-fio, mas assaz lampeiro e radiante com o saxofone entre os lábios, esmerilhando suas melodias boppers de centenas de notas - todas as notas no lugar certo, groovy.
sonny é a própria elegância. camarada fino.
parece incapaz de uma grosseria, um movimento brusco, um gesto rude.
despediu-se da turba batendo com os punhos fechados sobre o peito. um silencioso cumprimento pele vermelha, estilo keith, não pude deixar de notar.
como é bom poder vê-lo assim, inteiro.
vê-los inteiros, o imortal keith também.
suadouro. sentando aqui agora batucando as impressões jazzy e suando feito camelo. porque tomei meio litro de sopa de cebola. e porque acho que não vou dormir tão cedo. te digo que queria um dia ser velhinho que nem nossos heróis. just waiting on a friend...

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21 outubro 2008

anjos da noite

uh. hoje tem sonny rollins aqui no auditório do ibirapuera!
e também tem sonny rollins no programa 'anjos da noite'...
logo mais, às 22 horas, pela rádio cultura fm do distrito federal. http://www.movimentocalango.com.br/radiocultura.asp
o programa 'anjos da noite' é mais um trabalho dos estivadores do tpb

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20 outubro 2008

mcquem?

eleições são divertidas porque têm sempre golpe baixo.
aqui na grande cidade, a marta tá chamando o kassab de baitola.
e eu pensava que a marta simpatizava com os coaliras. enfim...
agora lá nos states o colin powell anunciou publicamente seu apoio a barack obama.
só pode ser sacanagem dos republicanos.

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curtes cineminha?

mostra de cinema de são paulo.
480 filmes de 75 países.
nova cópia de "o poderoso chefão"
retrospectiva ingmar bergman
filmes japoneses em preto e branco
os restaurados, os raros e os inéditos
the never seen before
tesouros de cinemateca pela primeira vez no brazil
o melhor do último festival de cannes
uau...
acho que vou ficar em casa e ver um dvd.

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19 outubro 2008

a verdadeira demokracia brazileira

dia de churrascão no the double tree park.
agora todo domingo é assim. pagode e forró e muito axé até oito, nove, dez da noite. diversão pura. samba e suor e cerveja para nossos vizinhos queridos. acho bacana o churrasco de paulista pra manter aquele clima alegre n´aclimação - saem as britadeiras de segunda a sábado e entra o paraibão no volume máximo, entra a música ao vivo ali na churrasqueira.
então eu fico trancado no meu apartamento beat, ouvindo bebop em alto grau. ouvindo futebol bem gritado na tevê.
imaginando morar em nyc, 42nd street, circa 1957.
volta e meia dou um pulo ali na minha varanda hipster para apreciar os limites da tragédia. fico espiando a quantas anda o bate-coxa na churrasqueira double tree. as bebidinhas, a malemolência, as mesas de plástico, a roda de samba. te digo o engraçado que é reparar ali, do outro lado da pires da mota, os domingones dos cortiços, do prédio pedro rachid. onde as roupas lavadas ficam dependuradas na janela e onde os vagabundos de peito aberto douram sem camisa sob o sol pálido paulistano, quando as empregadas saem de casa para curtir a tarde de folga, atochadas em seus tops e suas saias, carla perez style. ouvindo pagode e forró e muito axé.
na trilha-sonora das tardes de domingo, os ferrados do edifício pedro rachid e os bacanas do residencial the double tree park se encontram, mesmo sem saber.
bonito como a alta cultura supera o abismo social. viva ivete.

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17 outubro 2008

samba do avião (reprise)

não sei se acontece só comigo. mas sempre imagino o avião descendo reto quando acaba a pista de congonhas. e se espatifando na avenida washington luís. ali do outro lado da avenida, há um tapume funesto, azul com estrelinhas brancas, homenagem aos sombrios pressentimentos. como faço na hora da decolagem, na hora da aterrissagem também aproveito para preparar meu ipod para a ocasião solene. programo uma trilha bem bacana para my very last seconds. porque dá bem tempo de planejar direito o troço. tu percebe quando a aeronave dá aqueles pulinhos pra baixo, entupindo teus ouvidos hermeticamente pressurizados, caindo de nuvem em nuvem, aquela baita maquete cinzenta de metal e cimento crescendo lá em baixo, perigosamente aproximando-se da barriga de lata da nave. escolhi a madonna, só para zoar, o disco "music", última faixa, "american pie".
A long long time ago I can still remember/ How that music used to make me smile/ And I knew that if I had my chance/ I could make those people dance /And maybe they'd be happy for a while...
acho que essa é minha canção preferida da madonna. talvez por não ser dela (don mclean). e acho especialmente cool que seja homenagem a popstars mortos num desastre aéreo, buddy holly e richie valens, se tu me entendes.
Bye bye Miss American Pie/ Drove my chevy to the levee, but the levee was dry/ And good old boys were drinkin' whiskey and rye/ Singin' this will be the day that I die/ This will be the day that I die...
canto baixinho excitado com a madonna gemendo agarrada a meus tímpanos. canto baixinho só pelo prazer de look like a crazy guy, e estiiico as sílabas fatais: the day that i diiie... oh, vamos morrer, penso, macio, fechando os olhos, like a prayer. quando o trem de pouso faz clang e o ventre da aeronave vence os últimos pés que faltavam até o asfalto, num solavanco bong, os flaps riscando o ar grudento e espesso da grand ciudad, quase partindo ao meio suas asas, os motores reversos, etc, os pneus soltando borracha no asfalto. terá o grooving da pista suficiente groove pra nos segurar?
o avião breeeca antes de abraçar os muros do velho aeroporto. pronto para mais uma, dou um grau no volume do ipod.
Bye bye Miss American Pie...

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16 outubro 2008

o mundo só acaba uma vez

algumas headlines do noticiário econômico
catadas a esmo, nas últimas 24 horas, por pura diversão...
comércio internacional no olho do furacão
exportadores sem financiamento
vendas perdem fôlego
pior que o previsto
recessão indigesta
europa mergulha na retração
europa quer recriar fmi
lula ameaça bancos
crise do frango
risco de recessão mundial arrasa mercados e ameaça empregos no brasil
empregos serão ceifados
aumento do funcionalismo pode ser adiado para reforçar contas
bolsas derretem novamente

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vento do mar no meu rosto e o sol a queimar

trinta e dous graus às seis da tarde
tu meio que perde a vontade de fazer qualquercousa
só quero me mudar pro que restou da islândia
meu ventilador mallory tower faz mais barulho que um tucano da fab prestes a
decolar

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the poetry just like a fart

o camarão na moranga
pro almoço de sábado
me deixou a peidar
até a tardinha de segunda

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last night i dreamed about you

ontem. ou foi outro dia? dormi o dia inteiro. sonhei com o nada. afundei no colchão. macio. a roupa de cama. cheirando a confort. nem saí. me agarrei aos lençois. travesseiros. mal abri os olhos. tava assim. paralisado. entorpecido. babando. morto. morte é paz.

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that´s what salvation must be like after a while

dirigir um carro. te digo que já tinha me esquecido do quanto há de tédio nessa experiência automotiva. passeando aqui pelo autorama de brasília. varando a asa norte até o lago sul, início de madrugada. os sinais piscando ao infinito. preciso deixar o carro reto, segurando o volante e cuidando das linhas marcadas no asfalto. mas também é preciso fazer as curvas quando é o momento de se fazer as curvas. às vezes tu ainda tem que dar uma desacelerada quando é de se fazer as curvas. e mudar a marcha, então, p*ta trabalho chato, apertar a embreagem com o pé e deslocar o câmbio da posição a para a posição b, soltar a embreagem na maciota, calculando por instinto, sem nem pensar, a exata e minguante pressão exercida pela sola do pé. o câmbio, largado na banguela para a descida até a ponte costa e silva (adoro esse nome ligado a nossa história). o objeto fálico comanda o motor e pode fazer engasgar a belezura automobilística em plena ponte. o lago logo ali. então te digo que respeito a dinâmica, a engenharia, e levo o carro adiante, levemente assombrado com a fluidez de seus movimentos, mas as pessoas não andam a pé em brasília. tento me manter acordado, manter o carro no rumo certo, dentro dos limites asfaltados da estrada parque dom bosko que não termina nunca, não termina nunca. eternity must be a highway. a eternidade a ser uma auto-estrada.

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14 outubro 2008

anjos da noite

me diz, guria, tu vais ao tim festival?
esperanza spalding, carla bley e stacey kent; bill frisell, enrico pieranunzi e tomasz stanko, além de sonny rollins.
as atrações jazzy do tim passam primeiro pelo 'anjos da noite'.
hoje, às 22 horas, pela rádio cultura fm do distrito federal. http://www.movimentocalango.com.br/radiocultura.asp
o programa 'anjos da noite' é uma cortesia radiofônica do tpb

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"a minha maneira de estar sozinho"

breve em um cinema perto de você...
http://www.youtube.com/watch?v=1VAUhbyB4-k
(ou não)

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Godless

deixa esse pedaço com gordura pra mim. essa vida sem futuro. esse prazer que passa rápido. esse cigarro. quero mais um. aí depois um beijo. pode deixar também aquela foto. deixa uma tarde sem fazer nada. loser. vagababunda. de terça-feira. improdutiva. deixa pra amanhã. deixa quieto aquela grana. pode ficar. mas deixa esse sono depois do almoço. deixa só esse sono depois do almoço. essa coberta. esse frio. que já tou satisfeito.

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12 outubro 2008

une femme est une femme

gosto de mulher porque uma mulher é inesgotável...
eu passo longos minutos admirando calado o relevo de tua barriguinha. até tu perceber pra onde estou olhando. sou capaz de me distrair por um par de horas com cada pezinho. dedinho por dedinho, há muito a ser feito. te digo que me encanto longamente com as mãos e os dedos das mãos e o tamanho de cada dedo, o vão entre os dedos, as unhas pintadas com capricho...
já reparou naquela dobrinha que fica bem atrás do joelho?
a nuca, só a nuca já vale muita tesão.
adoro beijar o peito, como te disse, mamar no peito. esqueço do mundo quando posso brincar com um biquinho do peito, fazendo cosquinha e dando beijinho no mamilo até o bico ficar bem inchado, bem durinho. tua pele arrepiada.
teus pêlos.

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10 outubro 2008

samba do avião

não sei se acontece só comigo. mas sempre imagino o avião continuando reto quando acaba a pista de congonhas. aproveito tal pressentimento e preparo meu ipod para a ocasião solene. programo uma trilha bem bacana para my very last seconds. porque dá bem tempo de planejar direito o troço. desta vez o avião ficou um tempão parado na cabeceira da pista, uns oito minutos, esperando desengarrafar a pista e ser liberado para sua tentativa de alçar vôo entre os prédios cinzentos. escolhi sonic youth, um dos meus discos preferidos, o "washing machine", fui até a faixa "no queen blues".
hey! hey! where you're goin' in such a hurry?, pergunta thurston moore. take it easy girl and tell me a story, move on over here, slow it down, tell me why you've been, run out of town...
me espremo no aprazível assento. poltrona d, corredor. batuco em minha coxa, minha coxa gangrenada no abraço metálico da poltrona, acompanhando as batidas de steve shelley nas bigornas de meus ouvidos. a canção já vai para seu final, entrando no quarto minuto, quando a batida acelera, as turbinas ronronam forte, as guitarras se embaraçam, o avião arranca, a tempestade de estática inunda meus dutos auriculares, cresço o volume dois graus, a aeronave se despreende do chão, fecho os olhos e me deixo invadir pelo torpor noise, a aeronave rasga o ar espesso e grudento da grande cidade em direção às nuvens elétricas cinzentas.
já estamos entre elas, as nuvens elétricas cinzentas, quando thurston moore leva na maciota a introdução de "panty lies", a bela canção que kim gordon escreveu a respeito de uma guria que gosta de vestir sua calça colada na bunda, sem nada por debaixo. don't just stare, cause she's not wearing underwear...
e de repente não penso mais em desastres aéreos, se tu me entendes.

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08 outubro 2008

granja comary à noitinha

dunga
funga
sunga

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dear catastrophe waitress

fui dar uma banda pel´aclimação. porque a garoa deu um tempo, então fui lá espiar de perto o movimento das pessoas na grand ciudad, são estranhas as pessoas, sempre trabalhando tanto e dirigindo seus carros e pagando suas contas e votando no kassab e no hooji hato, as pessoas nunca se divertem, tirando os bêbados estirados na calçada, porque estes sim sabem viver. me chamam a atenção as pessoas.
estava a pensar sobre as pessoas, coitadas, e quase me esqueci dessa friaca do cacete que varre a aclimação num vento gélido aparentemente vindo do degelo da groenlândia. em tardes como esta, até fico a favor do aquecimento global, não leve a mal, tudo tem seu fim.

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uma chance para as foquinhas

quero retomar ($$) minha carreira de jornalista gonzo.
mas como diria macunaíma... ai, que preguiça.
preciso urgentemente de uma estagiária.
para o serviço de transcrever horas e horas de entrevistas on tape.
e para manter o berna feliz.
favor mandar currículo e anexar photos em trajes íntimos à redação tpb.

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You gotta go there to come back

sou um vagabundo sem o que fazer numa quarta-feira qualquer. de qualquer semana. de qualquer mês. de qualquer ano. num quarto escuro. abraçado ao vazio da sua ausência.

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07 outubro 2008

anjos da noite

oh, guria, tu já esteves na terra das mulheres elétricas?
um rolê com the jimi hendrix experience pela electric ladyland.
hoje, às 22 horas, pela rádio cultura fm do distrito federal. http://www.movimentocalango.com.br/radiocultura.asp
o programa 'anjos da noite' é mais um experimento lisérgico dos cientistas do tpb.

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06 outubro 2008

tudo bem

e então? procuras uma análise das eleições municipais?
bueno, se me perguntas, te digo que estamos todos bem. todo mundo que podia já se reelegeu ou se reelegerá logo mais.
afinal, todo este nosso atraso, o subdesenvolvimento, a exclusão social, o obscurantismo e o reacionarismo não são acontecimentos fortuitos para uma nação - são séculos de trabalho.
(kassab é bom. o kassab não é bom? por que mudar, né?)
me encanta como na cidade de são paulo, em pleno ano de 2008, contam-se 376.666 cidadãos dispostos a entregar a chave do cofre a paulo salim maluf.
o único progresso significativo na terra dos tupimbás foi a ascensão de fernando gabeira, subversivo, terrorista, maconheiro e viado. bem verdade que gabeira deve levar agora uma sova do grande eduardo paes, um dos melhores quadros do glorioso pmdb. f*da-se.
gabeira, mais uma vez, é o nosso herói neste filme de terror. mandou o pastor crivella pro diabo que o carregue.

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05 outubro 2008

o teste da farinha

fila pro pão na padaria madame.
uma aposentada d´aclimação puxa papo com o padeiro.
- você já votou hoje?
- não, senhora, vou lá mais tarde.
- em quem vai votar?
- nem sei.
- vota no kassab...
- tá.
- o kassab é bom. o kassab não é bom? por que mudar, né?
- tá.
atrás da dona, eu pigarreio polidamente.
ela se vira e olha pra mim, eu olho de volta pra madame.
o padeiro entrega o pão e ela vai embora.
o padeiro elucida a questão.
- é tudo farinha do mesmo saco.
- bueno, se tu dizes, meu senhor. tu és o padeiro.

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sobriedade & lucidez

e cancelaram a lei seca em são paulo.
borque só bêbado mesmo bra botar nesses canalhas.

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a democracia aperfeiçoada

primeira página de hoje da folha de são paulo:
"marta e kassab vão disputar o segundo turno"
boa. como já sabem o resultado das eleições, nem preciso ir lá votar.

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04 outubro 2008

new pollution

a poluição é como minhas fantasias
suspensa no ar, a boiar
tuas nuvens espessas me seguem

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casamento moderno

breaking news da ilha de caras...
"A cantora Sandy, que se casou com o músico Lucas Lima no último dia 12 de setembro, em Campinas, ainda está morando na casa dos pais. Sandy e Lima contaram que estão esperando o apartamento em que vão viver, também em Campinas, ficar pronto."
bueno, sexo então...

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03 outubro 2008

too old to rock

a insistência é tamanha que quem vê mtv periga achar que nx zero e pitty são artistas relevantes. e que ben harper é o novo david byrne.
(sincero mesmo foi o playback do bloc party.)

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02 outubro 2008

As histórias de amor sempre acabam

Outro dia dei um chute em mais um emprego corporate. Fui na casa de penhor e recuperei minhalma, com sorte, por alguns bons meses. Estou numas de arrumar one day jobs. Hoje consegui um. Tinha que entrevistar um sujeito na Vila Madalena. Desci até a garagem do The Double para pegar minha montaria na selva de pedra - o Tubarão Bordô de tantas histórias. Há muito ele já não é tão vistoso. Sujo, batido, cheio de barulhinhos suspeitos, perigosos e luzes de emergência.

Mas há dois tipos de profissionais que não visito a não ser em último caso: médicos e mecânicos. Não gosto da ascendência absoluta que eles exercem sobre nós. Até mulheres são mais fáceis de se lidar. Enfim... eis que estou chegando na Vila e acende uma luz vermelha do tamanho de um polegar no painel. STOP THE CAR NOW!

Oh fuck, me fodi bonito. A temperatura marcava 120 graus e o motor no ponto para assar uma fraldinha. Numa manobra à Lewis Hamilton, joguei o Tubarão num acostamento da Mourato Coelho e fui à pé fazer meu nobre trabalho de um dia.

Na volta, dei a partida, mas o ponteiro rapidamente bateu temperatura máxima. O Tubarão é um carro, mas é também um sujeito. Um sujeito complicado. Nunca se deu bem com mecânicos. Eis que surge uma idéia que há muito fermenta nos porões de minha mente. Abandonar o Tubarão no meio da rua. Forever.

Este pobre animal agonizante não me pertence mais. Ele é agora do reino celestial das sucatas. E eu gosto de abandonar coisas. Deixar pra trás. Seguir um novo caminho. E, desta vez, à pe. Chega de carros. Chega da falsa libido dos motores. São Paulo não precisa de tubarões bordôs a infestar seus mares turbulentos.

Andei até o metrô da Vila e fui pra casa. O Tubarão será consumido en la calle. A ferrugem devorará seus interiores, como vermes a um animal de vísceras expostas. C'est la vie.

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there's a place where the strange ones go

estender as roupas no varal é um dos afazeres mais sucks que cabem ao homem moderno. só não é pior do que passar roupa. aliás, eu já deixei quieto esse troço de passar roupa há bom tempo - mais precisamente, desde que, num breve sartori, percebi que um poeta beat não se mede pelas roupas bem passadas que porventura vista. essa singela iluminação foi fundamental para que eu atingisse um grau mais elevado em minha vida. e em minha poesia, que ambas se confudem. mas a decisão de não mais passar roupas aumentou a importância daquele gesto anterior, gesto ao qual me referia, o de estender as roupas no varal.
pois estava eu lá, a estender meus andrajos recém-lavados no varal hipster quando se sucedeu um acidente comezinho, que poderia passar despercebido no rol dos acidentes domésticos, mas que falou à minha atenção poética e avivou a maquininha de epifanias que habita este narrador.
há questão de um par de semanas, desenvolvi uma nova técnica de pendurar roupas no varal. em vez de estender as camisas na vertical, na posição em que as envergamos naturalmente no dia-a-dia, na posição em que nos acostumamos a vê-las, ou seja, com a gola para cima, dei para estendê-las no sentido oposto, de baixo pra cima, de ponta-cabeça.
mais do que dotar meu varal de um estilo visual peculiar, tornando-o uma espécie de instalação pós-moderna, quase um penetrável, essa nova maneira de se pendurar roupas revelou-se de uma felicidade intensa.
pois toda a boa arte é também uma arte funcional. ao virar as camisas de ponta-cabeça, os pregadores de roupa são colocados na ponta de baixo do tecido, em vez de na ponta de cima, nos ombros da camisa, próximos às mangas. como eu não passo mais minhas roupas, já o disse, essa nova localização dos pregadores foi de uma ensolarada felicidade: as marcas dos pregadores não ficam mais em meus ombros, o tecido repuxado, quando visto a camisa... percebes?
bueno, isso pra te dizer que meus pregadores de roupa são vagabundos. daqueles que saem por 1,99 o pacote com trinta, quarenta. por uma dessas idiossincrasias industriais, comuns na larga produção, o meu pacote veio com todos os pregadores verde-oliva - exceto um único pregador, de coloração acinzentada. de noite, no escuro, tu não percebes a diferença. mas no sol matinal d´aclimação, sob o qual costumo pendurar as roupas e usar os pregadores, fica evidente essa distinção de cor. esse único pregador cinza num cestinho de pregadores verdes, eu apelidei, carinhosa e ironicamente, de mandela. era evidente sua solidão, naquele apartheid de plástico.
pois hoje de manhã, há pouco mais de uma hora, mandela não aguentou mais tamanha solidão. mandela se aproveitou de meu descuido quando eu virava uma camisa de ponta-cabeça no varal, posição que requer mais atenção e mais controle motor daquele que estende as roupas. mandela aproveitou e escapuliu-se de minha mão esquerda (a irmã mais lerda da destra) e se atirou da janela. caiu do décimo-sexto andar do the double tree park. a esta hora, os restos mortais do melancólico mandela, o solitário pregador cinza de vida breve, já devem ter sido varridos da calçada pelo diligente joão baptista, completamente alheio à triste desventura que ali encontrou seu trágico e inesperado desfecho.

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