The Pothead Blues

poesia beatnik e pensamentos nihilistas

31 julho 2008

sinceridade

"Estou ficando cada dia mais esquisito. Convenhamos, tenho 45 anos. Em breve vou fazer 46. Não me sinto mais à vontade nos lugares. Não vou mais ao cinema. Me incomodo com as pessoas fazendo barulho, conversando ou comendo pipoca. Isso nunca me incomodou antes. Mas agora me incomoda muito. Devem ser os males da idade. Ou as benesses, sei lá. Assisto filmes em casa. Um porrilhão deles. Ainda gosto de sair à noite. Sou um boêmio, admito. Mas só vou em bares onde me sinto razoavelmente a vontade. Só sento em mesa de amigos. Caso contrário, prefiro mesmo ficar sozinho no balcão. Não tenho muito saco pra conversar com quase ninguém. Nem pra conhecer pessoas. Não gosto que me apresentem ninguém. Quando eu conheço alguém, tem que ser naturalmente. Não suporto alguém dizer pra mim: Preciso te apresentar tal pessoa. Aí já fico na responsabilidade de ser receptivo, razoavelmente simpático e não tenho mais idade pra isso, embora me esforce. Mas não quero mais me esforçar. Gosto de ficar sozinho em casa. Cada dia que passa, gosto mais de ficar sozinho em casa. Não gosto de receber visitas. Gosto de ficar deitado no colchão vendo um filme e me levantar de repente e correr pro computador porque tive uma idéia pra um texto e então começar a escrever como um possesso até a inspiração ir embora. Aí então pego um livro e vou ler ou coloco o novo disco que comprei..."
(mário bortolotto)

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os ares d´aclimação

os jornais alertam sobre a secura do ar na grande cidade.
o mês de julho mais seco em todos os tempos. o cobertor de poluição a esturricar ainda mais a atmosfera urbana. o risco de problemas respiratórios devido a baixa umidade do ar: bronquite, asma, pneumonia. além do ressecamento da pele, da rouquidão da voz e da maior probabilidade de conjuntivite alérgica e/ou infarto do miocárdio.
é preciso usar vaporizadores em casa. se não o temos, espalhar pelos cômodos toalhas molhadas e bacias de água. eu não tenho vaporizador - pra quê teria? - então largo minha toalha de banho, ainda molhada, em cima do colchão beat. encho um balde de água e o coloco do lado de meu sofá hipster. num esforço concentrado, deixo levantada a tampa da privada, para que a água do celite refresque meu banheiro junkie.
os jornais mandam evitar o ar condicionado, que deixa ainda mais seco o ar das repartições. mas eles informam que, se tu estiveres preso no trânsito (acontece), melhor subir os vidros e abrir o ar condicionado do carro. porque a fumaça dos escapamentos de caminhões e automóveis engarrafados causa ainda mais irritações nas vias aéreas do que o ar condicionado.
(convém não irritar as vias aéreas justo agora que o chaos dos aeroportos foi bater n´argentina.)
terror e pânico n´aclimação: a quantas anda a umidade relativa do ar?
não dou pelota, camaradas, pois sou um retirante do cerrado brasileiro. meus alvéolos estão acostumados ao regime árido do planalto central. então fui testar, pessoalmente, a quantas anda a secura paulistana de inverno. fui bater um pé ali na rua vergueiro, entre os camelôs e os freaks que ocupam as calçadas do hospital do servidor público municipal.
te digo, aqui, que fiquei arfante depois de alguns minutos de intensa caminhada entre a aclimação e o paraíso. te pergunto se realmente será a secura do ar? ou será o gás carbônico dos ônibus da vergueiro? serão as bactérias que esvoaçam pelo ar ali perto do hospital? ou terá sido a pizza napolitana de ontem à noite?
vá saber. tomo uma sombrinha debaixo de uma árvore. um momento hyldon. pois encontrei uma frondosa árvore no canteiro central do centro cultural são paulo. aqui, a céu aberto, os estudantes vêm usar a biblioteca do centro cultural, os ceguinhos vêm tatear os livos em braile. e os mendigos d´aclimação aproveitavam este banco de madeira para uma pestana no meio da manhã. mas os cartazes nas pilastras do centro cultural informam que esses últimos - os mendigos - não são mais bem aceitos por estas bandas. segundo os informativos afixados em lugar público, os guardinhas têm a liberdade de mandar se retirar aqueles freqüentadores que não tiverem boa "higiene pessoal" ou mesmo aqueles que "carregam grandes volumes" consigo.
antes que eu comece a feder, me recupero ligeiro de minha arfante respiração e volto à flânerie, tal qual um baudelaire entregue à fuligem blade runner da vergueiro street. procurando a sombra mais próxima e depois mais uma sombra e mais uma sombra e mais outra, num salteado equilibrismo que me leve até the double tree park, até meus baldes cheios de água.

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30 julho 2008

momento cronenberg

às vezes eu uso meu forno beat. para aquecer um prato chique para o almoço de domingo. tipo estrogonofe de filé da sadia. estava aquecendo o forno dia desses, com o estrogonofe suando lá dentro, quando me esgueirei pela cozinha até a área de serviço.
o termo é esse mesmo, esgueirar, pois minha roliça silhueta não é muito compatível com a cozinha estreita de meu apartamento hipster pós-especulação imobilária. mas dizer área de serviço, isso sim, é exagero de poeta. como tal entenda apenas o lugar onde se espremem a máquina de lavar roupa, o tanque exíguo e um varal com roupas penduradas all over.
enfim. então fui lá tratar da máquina de lavar, despejar um copo de amaciante fofo e tal, quando, de passagem pela cozinha, meti o joelhão no forno fervendo a duzentos e poucos graus centígrados. como boi tatuado em brasa. dei um berro e meu joelho direito ganhou uma segunda rótula. uma rotunda mancha avermelhada.
a mancha avermelhada ficou rosácea e ficou roxa nos dias seguintes. ganhou um aspecto escamoso, com uma acidentada topografia rachando a epiderme lanhada pelo calor. até que hoje acordei com uma espécie de aconcágua a apontar no meu joelho. uma bola de pus kingsize.
fui agorinha até o banheiro e meti o dedo na ferida. pois adoro um clichê. fiz uma punção a tapa. esguichando pus no piso do banheiro. como um gêiser a brotar das camadas tectônicas de minha epiderme arroxeada. um jato de pus. tipo o jeff goldblum em "a mosca", aquele filme do cronenberg.
sequei a ferida na marra. agora carrego apenas uma cicatriz. a lembrança murcha do que já passou, ficou para trás. a poesia queimada em brasa na pele do poeta. tipo broken heart, tu sabes?
e estou pronto para a próxima.

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29 julho 2008

hit and run

quando eu falo que a esquina entre a rua pires da mota e a josé getúlio é um dos principais entroncamentos viários da grand ciudad fica parecendo blague. mas és puramente la verdad.
tanto que esta semana, poucos dias atrás, até a companhia de engenharia de tráfego de são paulo percebeu como a mencionada esquina se revela um ponto nevrálgico para o trânsito n´aclimação e, por tabela, em toda grande são paulo. a cet destacou um de seus bravos marronzinhos para patrulhar exatamente essa área, aqui próxima ao sopé do the double tree park.
um marronzinho é tipo um guardinha do detran: óculos rayban, palitinho no canto da boca, talão de multas na mão e, neste caso, um uniforme marrom-cocô que aqui valeu a ele e a todos de sua classe esse apelido genérico. o marronzinho é antes de tudo um chato. o camarada, posso espiar agorinha mesmo aqui de minha varanda beat, está lá de pé, se espremendo na nesga de sombra lançada pelo residencial pedro rachid na calçada esburacada ao sol das três e pouco da tarde. ele já está por ali logo de manhã. sempre a deitar delitos & infrações em seu amarfanhado bloco de multas. (essa figura surgiu aqui no quarteirão assim que entrou em vigor o rodízio municipal para os caminhões; e não é coincidência: há seis diferentes canteiros de obras aqui num raio de cem metros e os caminhões andam sumidos.)
de vez enquando uma velha gagá d´aclimação - e são várias, pode crer - aproveita aquela figura autoritária dando sopa ali na esquina e a puxa de lado pralguma longa conversação sobre trânsitos & transeuntes. justinho ali na esquina tem um ponto de táxi, então há sempre um taxi driver suficientemente empolgado para tomar pé do discurso e defender a categoria. já acompanhei alguns desses bafafás assim de rabolho, meio ao largo, quando no rumo do supermercado dany, e a velhinha está a reclamar dos carros e o taxista está a garantir seu sustento de maneira digna.
mas hoje o marronzinho da josé getúlio teve que trabalhar de verdade.
uma caminhote preta daquelas de vidros fumê não parou no sinal e levou junto um entregador de água mineral que estava a pedalar sua bicicleta na faixa de trânsito. tão emocionante, um acidente de verdade. todos pararam para acompanhar o sucesso do desastre. os barbeiros do lial vieram para a rua. a tia da banca de jornais comentava minuciosamente as idas e vindas do bicicleteiro. o playboy da caminhote (não vi o cara, mas te digo que deve ser playboy, ou pai de playboy) parou o carro (em cima da faixa, claro) e tentou acudir o coitado. escapou de ser linchado e tal.
e o marronzinho atingiu seu momento de glória: apitando e gesticulando com os braços, mandando acelerarem os carros que desciam a pires da mota devagarinho, mandando passar rápido, sem parar para ver, sem engarrafar o tal entroncamento viário.
quem viu isso tudo foi a maria rosa, que estava lavando a janela do banheiro, e me chamou para espiar também.
então a ambulância de sirenes alertas subiu a pires da mota na contramão. ambulâncias, bombeiros e nossos simpáticos cops paulistanos adoram subir a pires da mota na contramão. dá adrenalina. tipo tropa de elite, sabe? e logo meteram o atropelado numa maca e o levaram para longe dos olhos públicos. o motorista acompanhou os oficiais até delegacia, décimo-quinto distrito, aclimação. para tratarem de particulares. e o vendedor de pães apareceu na esquina, dobrando o quarteirão, anunciando sua presença ao ordenhar com insitência sua buzina estridente tipo chacrinha. os bebuns voltaram para dentro da padaria madame e pediram mais uma brahma. maria rosa calçou suas luvas de borracha e voltou a tratar do celite, cantando hinos religiosos.
a vida voltou ao normal na urbe imensa.

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27 julho 2008

the poetry as a regular job

- mas... me diz... você faz o quê?
- sou poeta.
- poeta?
- sim. eu sou poeta.
- vive da poesia?
- diariamente. e tu?
- você trabalha em alguma coisa?
- trabalho com poesia.
- explique melhor...
- não há muito mais a ser explicado.
- queria saber...
- tu me perguntou o que eu faço. te disse que sou poeta. perguntou se trabalho com poesia. te disse que sim, esse é meu trabalho. eu escrevo poemas. e tu, guria? trabalhas em quê?
- sou professora de educação física.
- educação física?
- sim.
- taí, pequena. tu trabalhas com abdominais e polichinelos. e eu com sonetos e alexandrinos.
- senhor poeta... faz uma poesia pra mim?
- depende... faz uma série de flexões pra mim?

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24 julho 2008

a secret meeting in the basement of my brain

Estou aqui, no meu job corporate, em que escrevo vários textos corporate. Meio de saco cheio de tudo isso. Saco cheio de escrever, inclusive, aqui neste espaço tão nobre, o TPB. Deixando para o sábio e vagabundo Berna Beat a tarefa de entreter leitores. Esses jobs corporates me deixam assim meio sem tesão de pensar nas coisas boas, líricas e poéticas da vida. Como escrever sobre o nada no TPB. Como reparar no aprazível cotidiano d´Aclimação. Cotidiano este que acompanho de longe, apenas em leituras no meio tarde, entre uma ligação para um jornalista-editor-de-qualquer-bosta e outra para um cliente corporate. Em que devaneio, “ah como era boa minha vidinha loser”. Apenas acordar. Sem ter o que fazer, além de ir ao supermercado Dany conferir as promoções. Fazer o almoço. Lavar a louça. Dormir à tarde depois de ler um livro. Ou encontrar uma garota. De preferência alguma que também não faça nada, uma universitária preguiçosa a fim de ver um filme. Looking for one day jobs. Mas, não. O que me oferecem aqui é uma oportunidade irrecusável de vencer. De ter uma vida burguesa paulistana, que inclui uma casa na praia e uma casa no campo. Com uma bela esposa da elite branca. Com filhos estilo european. Com jantares no Jun Sakamoto. Happy hours na praça Villaboim. Almoços no Carlota. Passeios com meu labrador no shopping Higienópolis. Cafés no Suplicy. Uma boa vida burguesa e agitada custa caro. E me dá tédio.

Eu apenas suspiro, levo a parada adiante. Empregado hoje, na rua amanhã. Whatever. Ganhando tempo, pra pensar no que fazer, numa forma menos cinza de viver.

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21 julho 2008

a true beatnik

seu madeira é um cara famoso n´aclimação. um cara que está sempre a dar rolê pela rua josé getúlio, sempre a bater um café nas manhãs da padaria madame. e hoje seu madeira veio ter um papo comigo, quando estávamos ambos a laricar no balcão da madame, lá pelas oito da manhã. te digo que fiquei deveras emocionado, pois o madeira é um dos sujeitos mais beats d´aclimação.
madeira está sempre bem vestido. hoje de manhã estava metido numa calça de linho branca, branquíssima, estilo pai de santo, combinando com a barba grisalha estilo roots que desce em longas suíças até o meio do rosto e se fecha num cavanhaque ralo. a calça também combinando com os sapatos esfarrapados do tipo médico plantonista e com o paletó levemente amarfanhado um tom mais para o bege. debaixo do paletó, uma antiga camisa do são paulo futebol clube. seu madeira é famoso pela beca que apruma em sua hipster figura. e pelo tricolor.
madeira entrou na madame tragando um cigarro.
o chapeiro se virou e ficou puto com o freguês - pô madeira, aqui não, você sabe que aqui não pode. verdade, ele se desculpou, tacando prontamente o que restava do cigarrillo pela janela. não precisou nem pedir, foi servido com um café preto fumegante em copo americano precariamente lavado. seu madeira tem moral. e começou a falar alto.
- ontem eu estava lá xingando o muricy e pedindo o aloísio, garantiu, batendo no peito com a recém-impressa edição do diário esportivo lance, que trazia a vitória são-paulina na capa.
- ai, lá vem você, retrucou o balconista, com esse seu papo de bambi.
- bambi, bambi...
seu madeira ficou ofendido, olhando pra mim, pedindo minha intervenção solidária.
- sou flamengo, esclareci.
- que seja. mas veja... ficam me chamando de bambi.. o que tem de mau nisso? um animalzinho simpático... que fica no mato... pior é esse que era periquito até outro dia e virou porco.
seu madeira riu sozinho dessa zoofilia bizarra e foi dar um rolê.
saiu sem pagar.
no caminho até a porta, achou uma moedinha de dez centavos no chão. colocou no bolso.
- não sou rico de ficar desperdiçando o que encontro.
e mais não disse. eu até pude vê-lo novamente, minutos mais tarde, já na avenida da aclimação, a esbravejar contra um motorista de ônibus que parou no sinal mas não abriu a porta para que ele subisse.
- vai embora daqui então. que eu moro aqui e exijo respeito.
o sinal abriu, o ônibus partiu e seu madeira, elegante, subiu a pé a rua urano.

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a história da eternidade

agora que até a dercy morreu
só falta o keith
(e o brito também)

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18 julho 2008

the old man and the industrial winter

o velho brito é o keith richards do the double tree park. sua mera existência diariamente a desafiar os prognósticos da medicina. sua longeva figura a lançar toda e qualquer propaganda oficial sobre os malefícios do tabagismo às trevas do descrédito. the old man brito acendendo um cigarrinho no outro, acendendo o próximo cigarrinho nas brasas do anterior. a fantasmagórica e altiva silhueta do velho homem sempre a percorrer as dependências do double tree. curtindo sua aposentadoria em nosso aprazível residencial hipster.
no entanto, ultimamente, tinha sentido falta do velho brito. como que desaparecera. pouco antes de notar sua ausência, me lembro de ter ouvido ecoando no átrio do décimo-sexto andar uma alarmante tosse catarrenta de cachorro molhado. seguidos acessos de tosse catarrenta. porque ora se faz inverno na grand ciudad e a temperatura esquizofrênico-industrial paulistana sobe-e-desce ao sabor da sucessão vertiginosa entre dias de sol e madrugadas de friaca, num permanente estado de baixa umidade relativa do ar, a fuligem urbana a tornar ainda mais seca essa mistura instável de oxigênio, gás carbônico e whatever que respiramos diuturnamente. a tosse de brito parecia anunciar a despedida de nosso ilustre personagem. ao fim de dias e dias marcados pelo solavanco de suas tosses, apenas o silêncio.
pensei que...
que nada! topei de cara com the old man brito faz pouco. trajava sua jovial bermuda a desafiar o incompreensível termômetro deste inverno paulistano. meneou a cabeça em minha passagem, numa deferência silenciosa. the old man does abide.

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a pontualidade de um trem descabelado

eu estava lendo um soneto do pablo neruda dia desses.
as gurias se amarram nos sonetos do pablo neruda, já percebeu?
eu acho neruda bacana e tal. mas te digo que isto me impressionou:
"...Noturna travessia, brasa negra do sonho
interceptando o fio das uvas terrestres
com a pontualidade de um trem descabelado
que a sombra e pedras frias sem cessar arrastasse..."
li isso e admito que não pude deixar de pensar cá comigo:
taí o tipo de cousa que queima o filme dos poetas.

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17 julho 2008

the artful experience of not drinking with friends

- olá, guria... qual a boa da quinta-feira?
- ah. hoje eu estou a fim de sair pra beber.
- bacana. é assim que se fala, pequena.
- vou chamar meus amigos. vamos?
- desculpe, mas não vai dar pra ir, não. valeus.
- como assim?
- fica proutra.
- mas você estava animado pra sair, poeta, por que não?
- um poeta não sai pra beber com os amigos das gurias.
- ué? mas você não perguntou qual era a boa?
- perdeu a poesia.

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conflicting edits

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- é a poesia, se apercebe o poeta, the double clickin´ is poetry happening twice at a time.

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the bus stop

dando um rolê matinal pel´aclimação. gosto do sol das nove da manhã. quentinho e macio. a gata amarela da rua urano escapa do quintal e vai tostar seus pêlos doirados na calçada às nove da manhã. ronronar baixinho para os passantes. eu páro no meio da ladeira, mequilibro em cócoras e faço festinha. depois me sento no ponto de ônibus da aclimation avenue, mais ali adiante, espiando as pessoas getting by.
as pessoas subindo nos baús e partindo pro paraíso, pra avenida paulista, pra rebouças, pra sé. as pessoas apressadas atrasadas pro tabalho, pra qualquer lugar. as pessoas ouvindo i-pod e escalando as escadas do baú até virarem paçocas ali dentro passando pela roleta. os ônibus demoram a passar pela aclimation avenue, então sempre rola esfrega-esfrega, não importa a hora do dia. eu fico lá sentado. encosta o primeiro baú. deixo passar. chega o segundo baú. deixo partir. demora mais um pouco, demora uns quinze minutos pelo relógio na frente da churrascaria laço da aclimação. até chegar, enfim, o terceiro baú. as pessoas se empurram pra dentro da máquina automotiva. eu me espicho de pé, estalo os joelhos e vou dar uma banda pela pires da mota. todo dia os ônibus levam as mesmas pessoas para os mesmos lugares. todo dia.

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15 julho 2008

love, inc.

não está aqui
o amor
deixaram secar
ao sol
deixaram cair
sem cuidar
deixaram quieto
o amor
agora foi embora
levantou, pegou o boné, acendeu um cigarrinho
foi tratar da vida
isso mesmo
adeus

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anjos da noite

- hey, guria, tu curtes lisergia?
rock espacial, blues psicodélico, free jazz, country riponga e acid folk.
grateful dead no programa "anjos da noite".
e mais janis joplin, jefferson airplane, moby grape e santana.
hoje, a partir das 22h, pela rádio cultura fm do distrito federal.
http://www.movimentocalango.com.br/radiocultura.asp
o "anjos da noite" é uma artesania radiofônica dos freaks do tpb.

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13 julho 2008

fellini só vive duas vezes

tarde de domingo. te digo que eu estava lá, estirado em meu sofá beat, jiboiando lentamente toda uma picanha do rod luz, meio que dormindo, quase peidando baixinho em dó menor. quando a impecável e lúcida narração de kleber machado, monocórdia a embalar minha digestão, saindo de dentro do jogo do palmeiras na tevê, começou a ficar embaçada em meus ouvidos. não entendi direito. achei que o problema era comigo, tentando puxar um soninho gostoso. muito cerume no ouvido, muita picanha na pança, muita lerdeza n´alma. mas não era comigo, não.
tinha alguém falando mais alto que o kleber machado. tinha alguém atravessando a locução do camarada. e quem seria? quem poderia falar ainda mais alto do que o kleber machado a irradiar um clássico paulista? quem? só mesmo uma força superior... só mesmo... deus.
ou quase deus. ou um enviado de deus.
era isso, sim, era deus. era um homem de deus. um homem de nosso senhor a nos redimir naquela tarde de domingo. uma procissão na pires da mota. uma pôrra de uma procissão descendo a pires da mota. corri pra varanda, espichei o pescoção e pude ver um comboio de carros descendo a rua, devagarinho, na banguela. pois é, uma procissão de carros. todos com as luzes piscando. saravá, meu povo, as luzes de alerta piscando na rabeira dos automóveis. e, no meio das carrangas piscantes, um trio elétrico de ivete. quase. era um caminhão bem fubanga, de dois eixos e provável chassis adulterado, levando em cima um padre esgoelante - de batina branca - a cuspir ao microfone, o alto-falante do caminhão fazendo mais barulho que a rede globo de televisão. o padre ficava passando a mão na estátua de nossa senhora. ficava se benzendo e rezava o pai nosso no microfone.
as pessoas corriam pra janela. ver que porra é aquela. mas o diabo é que nas calçadas vazias - tarde de domingo e palmeiras na tevê - ninguém se importava muito, ninguém dava lá muita pelota pro marcelo rossi d´aclimação. o pessoal apertava o passo, olhava em frente, fingia que não era ali. nosso padre marcelo do trio elétrico conquistou apenas um fiel - um bêbado a balançar os braços e gritar qualquer cousa que não se ouvia por conta da reza amplificada em megawatts absurdos. bueno, pensando melhor, talvez o bebum estivesse a soltar imprecações para o padreco que, surdo em sua fé, retribuía amavelmente dando tchauzinho. "deus abençôe os moradores da rua pires da mota", disse o bom pastor - oh, obrigado, e agora cale a boca.
logo atrás do padre vinha um caminhão do corpo de bombeiros com uma sirene estúpida. uma sirene que ficava miando de tempo em tempo. e a pôrra da procissão furando o sinal da josé getúlio na maior cara de pau. nossa senhora furando o sinal, o padre a cantar, os fiéis metidos em seus carros blindados de vidro fumê e faroletes a piscar, os bravos bombeiros a proteger aquela balbúrdia com sua sirene. e cadê os marronzinhos pra meterem uma multa na nossa senhora?
e lá se foi o padre a rezar. a carreata engarrafando a pires da mota e dobrando a esquina da avenida da aclimação, perturbando o sossego de todos em nome de nosso senhor jesus cristo, que morreu por nós, que morreu por nossos pecados. e a mãe dele também.

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12 julho 2008

supõe-se

diz a manchete:
"PF prende suposto falso diplomata italiano em SP"
bueno...
se o camarada é um "suposto falso" diplomata, então ele é diplomata de verdade?
e mesmo assim prenderam o cara??

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garçonete russa de dezoito anos

do noticiário internacional:
"Após o escândalo de que Ronnie Wood teria abandonado a mulher para ficar com uma garçonete de 18 anos, amigos garantem que o guitarrista do Rolling Stones prometeu se internar em uma clínica de reabilitação para viciados em álcool, informa a edição deste sábado do tablóide inglês The Sun. Ronnie Wood teria "caído na real" após ler a entrevista no The Sun de sua mulher, Jo, com quem é casado há 23 anos. Ela disse estar muito preocupada com o marido, que bebe até duas garrafas de vodca por dia. Além disso, ele levou para a casa do casal uma garçonete russa que conheceu em um bar. Jo nega que os dois tenham um envolvimento amoroso, mas a garota escreveu em sua página na Internet que é a nova namorada do músico."

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11 julho 2008

rotina

a polícia leva o daniel dantas em cana
o supremo vai lá e solta
a polícia leva o daniel dantas em cana de novo
o supremo vai lá e solta outra vez
- e o gilmar mendes? quem leva o gilmar mendes em cana?

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shine inside my mind

dia desses passei duas semanas ouvindo oasis sem parar. tipo revival britpop. chegou a contagiar john pothead, um cara muito mais ligado às novas tendências do pop-rock internacional do que este velho beat que vos escreve - um cara que ouve the national, enquanto eu aqui ouço the grateful dead. enfim. nos últimos dias me bateu outro revival noventa. ouvindo low dream aqui até rachar. esse é um revival que, imagino, ao contrário do revival gallagher, não tomará conta do the double tree park. ( e acaba de me ocorrer que poucas cousas podem ser mais indies do que um revival da low dream. chega a ser pseudo.)
de modo que pedi pro nosso brother pinhones traficar por e-mail algumas old songs da low dream. e no meu ipobre fubá não pára de girar (?) o segundo LP (?) dos camaradas. o correio está em greve, ou pediria pra minha mãe beat despachar os discos lá de brasília. (minha coleção de discos está assim partida ao meio, nunca mais será a mesma.)
descendo a loureiro da cruz até a aclimation avenue ouvindo low dream no ipobre em volume extremo.
when the sun blind my eyes and i feel my soul in the sky...
porque às vezes é preciso descer a loureiro da cruz às sete e pouco da manhã num momento de friozinho industrial pragente lembrar do caráter beatífico de uma guitarra e um pedal de distorção. te confesso que, há umas poucas semanas, ainda envolto pela gravidade canábica folkster do grateful dead, eu tinha esquecido da existência dos pedais fuzz.
com meu ipobre trovejando uma nuvem cacofônica direto em meu cerebelo, sem equalização, os agudos ampliados pelos auriculares vagabas, me senti como numa sessão de acupuntura nos tímpanos.
de repente notei que meu corpo estava mais leve, meus joelhos não estalavam mais, minha carcaça pesada a flutuar macio pelas calçadas d´aclimação num estupor noise.
eu queria ser lou reed, e tu?
in a kiss i feel the taste of flowers, it´s like a dream in a million hours, tomorrow will be the same sad day, there is no ball and i won´t be able to play, from the ocean inside your bewitched eyes...

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10 julho 2008

habeas

mais um aforismo zimmerman:
it takes a lot to laught, it takes a train to cry
em versão brazileira:
levam anos para prender, e uma noite pra soltar

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09 julho 2008

por que eu leio horóscopos (radio edit)

"responsabilidades se multiplicam sobre seus ombros, mas se você estiver firme, tocado pela certeza interior de que segue um rumo inevitável, próprio e equilibrado, conseguirá sentir a força que precisa. procure relaxar em algum momento."

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box of rain

"Look out of any window
any morning, any evening, any day
Maybe the sun is shining
birds are winging or
rain is falling from a heavy sky
- What do you want me to do,
to do for you to see you through?
this is all a dream we dreamed
one afternoon long ago
Walk out of any doorway
feel your way, feel your way
like the day before
Maybe you'll find direction
around some corner
where it's been waiting to meet you
- What do you want me to do,
to watch for you while you're sleeping?
Well please don't be surprised
when you find me dreaming too..."
(robert hunter e grateful dead)

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08 julho 2008

compensação

preenchi um daqueles cheques sinistros cheios de zero.
tipo do troço que me me faz esquecer a própria assinatura. e bate uma deprê después.
a moça do banco até me ligou, veja só, pois queria saber se esse cheque era pra valer. pode crer, guria, é pra valer. não foi estelionato, não.
ela não se deu por satisfeita.
- senhor scartezini, ela interrompeu, posso saber qual é a profissão atual do senhor?
ah.

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baby look

incrível o processo natural das roupas deixadas no armário.
meus casacos encolhem a cada inverno.

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anjos da noite

curtes rhythm and blues?
al green, macio e elegante, é o camarada deste "anjos da noite".
logo mais, às 22h, pela rádio cultura fm do distrito federal.
http://www.movimentocalango.com.br/radiocultura.asp
o programa "anjos da noite" é uma artimanha de seus soulmates do tpb.

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05 julho 2008

comidinha gostosa

os britos são um casal de velhos sebentos. deles dois pode-se esperar praticamente qualquer cousa. mas agora há pouco eles se superaram. estava eu, perdido em meus pensamentos beats, inadvertidamente descendo do elevador aqui no décimo-sexto quando senti no ar um fedor pestilento. foi apenas questão de botar o pé para fora do elevador e sentir o pavoroso odor já ocupando todo o átrio do décimo-sexto.
cousa do brito, pensei de imediato, com as narinas ocupadas por aquele cheirinho azedo de fritura apodrecida. ah, a pôrra do almoço do brito, completei o pensamento e, dobrando a esquina rumo ao 1604, fiquei lívido e compreendi como o cheiro do brito estava a se manifestar tão intensamente desta vez, se manifestar em todo seu esplendor. a porta do apartamento 1605 estava aberta. não digo entreaberta. digo aberta, escancarada.
o fedor do almoço do brito tornara-se tão desagradável que até aqueles dois anciãos não suportaram tamanho mau cheiro. abriram a porta do apartamento para fazer escoar aquela nuvem grossa de podridão. respirei fundo e cruzei o corredor de fronte à porta de meus simpáticos vizinhos - e num relance capturei a cena mais grotesca que completasse com grande alarido sinestésico a fedentina em meus pulmões: o brito e a senhora brito, sentados na mesa da sala, um ao lado do outro, juntinhos, plácida e candidamente almoçando o refugo que saíra daquela bestial fritura dos infernos.
quase desmaiei à simples visão. mas sou forte. sou vizinho do brito há dozes meses e essa proximidade me tornou um camarada de estômago resistente e de espírito que não enverga facilmente. vooei num espasmo até adentrar com estrondo no meu querido 1604. fechei a porta atrás de mim numa porrada. meu apartamento hipster nunca me pareceu tão confortável, seguro e higiênico.
te digo que acendi logo dois incensos de sândalo, para espantar o ar carregado, e o espírito carregado. passei perfuminho gostoso no meu cangote e em cada uma das narinas. abri a porta de leve e pela fresta despejei meio litro de spray bon air (sabor brisa do mar) no corredor do décimo-sexto. mas temo que a pajelança tenha sido tardia - e inútil.
the double tree park federá para sempre. federá ao menos em minhas mais traumatizantes recordações. federá para sempre dentro de minha aturdida cachola.

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girl from the north country

fui dar uma banda pela feira da loureiro da cruz.
fiquei chocado com o preço do alho, c*ralho.
comprei uns tomates italianos que, pelo preço, de fato vinham lá da itália. comprei um cacho de bananas, nanicas e nacionais mesmo. e levei algumas pêras, porque sou um sujeito saudável. mas deixei para os japas os chumaços de alfaces hidropônicas livres de agrotóxicos. me diga qual é a graça de uma alface sem veneninho pra minhoca? o agrotóxico é que dá barato na saladinha. o agrotóxico e uns dentes de alho - mas alho tá caro pra c*ralho.

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04 julho 2008

let´s lynch the landlord

regra de três. esse é o mais sofisticado pensamento matemático que ainda carrego cá comigo, entre meus seqüelados neurônios e suas sinapses cannábicas. aplicando aqui agora a tal regra de três para calcular o aumento do aluguel da unidade 1604 do residencial double tree park, à rua loureiro da cruz, para a temporada entre julho' 08 e julho' 09. deprê.
creio que gastar dinheiro com aluguel é o equivalente imobiliário a queimar cédulas de cem reais. o equivalente imobiliário a limpar a b*nda - perdão pela expressão - com reais recém-impressos pela casa da moeda. é dinheiro sem retorno.
deprê agora.
a taxa de aumento de aluguel bateu em 14,33% - sabias disso?
dear landlord, please don't put a price on my soul
my burden is heavy, my dreams are beyond control

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aclimação catorze graus

tu me perguntas o que faço acordado a estas horas.
- não é o poeta do meio-dia? então não tinha trocado o sereno pela poesia solar?
- verdade. mas esse troço de poesia não tem hora marcada e não tem como evitar quando te sacode e te levanta do colchão. vou varar a noite até passar.
abre a janela e deixa a friaca entrar. vai para a varanda e acende um cigarrillo espiando as luzes amarelas piscantes dos sinais de trânsito atordoados com o frio. parei de fumar. e a friaca me dá um nó na garganta, como apertando a glote. não deveria ter parado de fumar.
o inverno é para isto: fumar, tossir, agasalhar, varar as noites geladas d´aclimação.

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03 julho 2008

the jingle jangle morning

tu encontra as pessoas no elevador do the double tree park. perceba que, com um bocado de sorte e sem o brito como vizinho de porta, periga tu passar a vida inteira no double tree park sem encontrar viv´alma por aí. tirando a turma da limpeza, claro, e os porteiros.
quanto aos condôminos, no máximo, tu escuta a cama do casal do décimo-sétimo batendo na parede às onze e pouco da noite quando eles trepam - nem todas as noites.
mas the double tree park é uma espécie de cortiço classe-média: vinte andares e duzentos apartamentos. então tu acaba encontrando as pessoas no elevador.
oito e pouco da manhã, horário de rush nos elevadores, encontrei no espaço exíguo da máquina de ascensão predial uma vizinha nunca antes vista. quarenta e poucos anos, cabelos compridos até quase a cintura, tingidos de um ruivo revlon. roupas hippies de marca, com uma calça levemente boca de sino. tipo a joan baez da oscar freire. estava eu, beatniticamente, medindo essa figura peculiar quando ouço familiar melodia...
hey! mister tambourine man, play a song for me, i'm not sleepy and there is no place i'm going to.
o som tinha aquele timbre mono de radinho de pilha.
imaginei que o ipod da moça estava se comunicando para o mundo.
que o marcapasso da senhora estava com interferência da kiss fm.
mas nã, era o celular dela.
tu curtes zimmerman?, esbocei a pergunta, mas ela ficou encarando os inesgotáveis números vermelhos descendentes no placar do elevador enquanto bob arrematava a primeira estrofe.
hey! mister tambourine man, play a song for me, in the jingle jangle morning i'll come followin' you.
porque era mesmo a versão original do bob, não aquela dos byrds. e a minha vizinha sequer esboçava atender a chamada. o celular continuava vibrando em sua vibe folkster jingle jangle.
quem estaria a ligar? a date? o ex? uma amiga da época de facul? seria wander wildner a ligar? estaria ela atrasada para o job e por isso não atendia os apelos de zimmerman? estaria intimidada diante de minha presença jerry garcia?
o elevador chegou ao primeiro subsolo. ela desceu e saiu a pé pela porta da garagem tomando a rua pires da mota. bob continuava a cantar pelas calçadas d´aclimação. tocando gaitinha e levando sua trip ancestral pelo magic swirlin' ship.
te digo que my senses have been stripped por reencontrar o velho bob pai a cantar num motorola fanho. ou será que a mallu magalhães ficou resfriada?
i'm ready to go anywhere, i'm ready for to fade into my own parade, cast your dancing spell my way, i promise to go under it.

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01 julho 2008

anjos da noite

hey, guria, tu curtes blues?
as músicas de willie dixon segundo muddy waters, rolling stones, howlin´ wolf, led zeppelin, little walter, canned heat, jimmy witherspoon e outros bacanas.
logo mais, às 22h, na rádio cultura fm do distrito federal
http://www.movimentocalango.com.br/radiocultura.asp
o "anjos da noite" é uma armação radiofônica dos gaiatos do tpb.

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